
Por que Psicologia é Política?
O lugar da Psicologia
O sofá da sala e a poltrona da clínica não são o mesmo lugar.
Sabe aquele dia em que o peito aperta tanto que parece faltar ar? Aquele momento em que a ansiedade grita, a angústia transborda e você só precisa que alguém escute?
Muitas vezes, corremos para o sofá da sala de um amigo querido. Tomamos um café, choramos, desabafamos. E isso é lindo. O apoio de quem amamos é vital. Mas um abraço e um conselho, por mais cheios de amor que sejam, não tratam uma fratura na alma, assim como não curam um osso quebrado.
É exatamente sobre isso que precisamos conversar hoje. Para muita gente, falar sobre quem pode ou não exercer a terapia soa como "reserva de mercado" ou briga de egos profissionais. Mas eu quero te convidar a olhar para isso de um lugar muito mais íntimo e cotidiano: o seu próprio cuidado. Regulamentar quem pode sentar na poltrona à sua frente e conduzir a sua saúde mental não é burocracia. É política pública. É proteção à sua vida.
A ilusão da conversa
A confusão começa quando acreditamos que terapia é "só ir lá conversar". Se fosse assim, qualquer pessoa com boa vontade poderia fazer.
Mas vamos olhar de perto: quando um amigo te escuta, ele faz isso através da lente da própria vida. Ele te dá conselhos baseados no que ele faria. Ele te conforta, mas pode acabar validando comportamentos que te machucam, simplesmente porque ele quer te ver parar de chorar.
A psicoterapia é um espaço radicalmente diferente. O psicólogo não está ali para te dar conselhos, julgar suas escolhas ou dizer o que você "tem que fazer". Naquela poltrona, existe uma escuta sustentada por anos de estudos rigorosos sobre como o desenvolvimento humano funciona, como os traumas se instalam no corpo e na mente, e como as nossas dores se estruturam, a chamada psicopatologia.
É uma escuta treinada para ler o que você não diz. Para identificar padrões invisíveis a olho nu. Essa é a nossa técnica: usar a ciência não para te colocar em uma caixa, mas para te dar ferramentas reais para sair dela.
O perigo de entregar sua mente a quem não estudou para isso
Temos visto um crescimento assustador de promessas de curas rápidas. Pessoas sem formação em psicologia ou medicina oferecendo "reprogramações", "destravamentos emocionais" ou terapias sem qualquer respaldo científico sério.
As consequências acontecem todos os dias, de forma silenciosa e devastadora. Enquanto a psicoterapia não for blindada por lei, pessoas fragilizadas continuarão sendo expostas a "tratamentos" incorretos. Continuarão perdendo tempo precioso, dinheiro e, o mais grave, perdendo a esperança de que podem se sentir bem de novo.
É para frear esse cenário adoecedor que o Projeto de Lei 2386/2023 tramita hoje na Câmara dos Deputados, buscando regulamentar que o ato psicoterapêutico seja privativo de psicólogos e psiquiatras. Não é um capricho; os riscos de uma intervenção leiga são concretos e cientificamente mapeados:
Iatrogenia psíquica (o adoecimento causado pelo "tratamento"): Técnicas inadequadas, como forçar alguém a reviver um trauma, podem causar o que chamamos de re-traumatização. O paciente não elabora a dor; ele revive o desespero, podendo desencadear crises dissociativas ou transtornos de estresse pós-traumático severos.
Agravamento do quadro e risco à vida: Transtornos complexos, como a depressão maior ou a bipolaridade, têm bases neurobiológicas. Um falso profissional que trata isso como "questão de mentalidade" ou "falta de propósito" atrasa o diagnóstico correto e o encaminhamento psiquiátrico, aumentando drasticamente o risco de suicídio.
Abuso de vulnerabilidade e quebra de sigilo: Profissionais regulamentados respondem a Códigos de Ética. Quem não é psicólogo não responde a Conselho nenhum. O paciente fica completamente desprotegido contra manipulações financeiras, dependência emocional e quebra de sigilo de suas dores mais íntimas.
A clínica como um território livre e laico
Para que possamos enxergar e tratar a complexidade humana, a psicologia é uma ciência que precisa estar radicalmente aberta. O consultório deve ser um espaço seguro para receber todas as crenças, etnias, modos de vida, posturas políticas, orientações e identidades sexuais.
Isso é um pilar técnico: para que o psicólogo consiga ajudar o sujeito a identificar padrões de existência que lhe causam dano (ou que ferem outras pessoas), é necessária uma escuta absolutamente limpa de preconceitos ou julgamentos de valor pré-estabelecidos. A empatia clínica exige a suspensão da moral do terapeuta.
E é exatamente por isso que precisamos falar sobre outra ameaça gravíssima: o Projeto de Resolução do Senado (PRS) n° 3/2026, que tenta legitimar atrocidades éticas sob o manto de uma "psicologia cristã".
Precisamos ser incisivos aqui. A religiosidade e a fé são opções individuais e dimensões importantíssimas da vida de muitos pacientes. Nós, psicólogos e psiquiatras, as acolhemos com profundo respeito quando o paciente as traz para a sessão. Mas a Psicologia, enquanto ciência, teoria e método, é e precisa ser laica.
Misturar dogma religioso com prática psicológica rompe com todos os critérios éticos da nossa profissão. Sofrimento mental, como depressão e ansiedade não são e nunca serão "falta de Deus". Os riscos psicossociais dessa premissa são violentos:
Culpabilização do adoecimento: Dizer a um paciente deprimido que a dor dele é falta de fé é jogar sobre ele uma culpa insuportável, piorando o isolamento e o ódio de si mesmo.
Violência contra identidades: Abordagens de cunho religioso frequentemente carregam premissas de "cura" ou patologização de identidades sexuais e de gênero, o que é tortura psicológica, já proibida pelo nosso Conselho (CFP).
Silenciamento de abusos: O uso de dogmas que pregam submissão ou perdão incondicional, quando aplicados na clínica, podem manter vítimas de violência doméstica amarradas aos seus agressores, mascarando a violência estrutural.
Em última instância, a defesa do PL 2386/2023 e a rejeição categórica de aberrações éticas como o PRS 3/2026 não se resumem a um debate corporativo, burocrático ou moral. Trata-se de uma luta inegociável pela dignidade humana.
Quando a sociedade flexibiliza quem pode manejar o sofrimento psíquico, ela institucionaliza a negligência. Quando permitimos que o dogma religioso se disfarce de técnica clínica, tornamo-nos cúmplices do silenciamento e da exclusão da pluralidade da existência humana.
A psicologia clínica nasceu, e só pode continuar existindo, como um farol de lucidez e acolhimento. Ela precisa ser aquele último reduto seguro onde a dor é tratada com o rigor da ciência e onde a singularidade de cada sujeito é protegida de qualquer forma de violência, apagamento ou moralismo. Cuidar dos contornos de uma mente em sofrimento exige reverência, estudo constante, supervisão, técnica e, acima de tudo, uma responsabilidade profunda para com o outro.
Que possamos reconhecer, coletivamente, o peso dessa responsabilidade. A poltrona da clínica não é um altar para conversões, nem um palanque para conselhos baseados em achismos. Ela é um território de saúde, sustentado pela ética e pelo respeito irrevogável à vida.
Garantir que a psicoterapia seja feita exclusivamente por quem dedicou a vida a estudá-la e exigir que ela permaneça laica, livre e científica é a única forma de garantir um cuidado real. E defender esse território, hoje e sempre, é um ato profundamente político.
Referências bibliográficas
BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 2386, de 2023. Disponível no portal oficial da Câmara dos Deputados.
BRASIL. Senado Federal. Projeto de Resolução do Senado (PRS) nº 3, de 2026. Disponível no portal oficial do Senado Federal.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 10, de 21 de julho de 2005. Aprova o Código de Ética Profissional do Psicólogo.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 13, de 15 de junho de 2022. Regulamenta o exercício da Psicoterapia por psicólogas e psicólogos.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 01, de 22 de março de 1999. Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual.

