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Por que Psicologia é Política?

Um Manifesto pela Realidade da Saúde Mental

Quando pensamos em psicoterapia ou nos cuidados com a saúde mental, a imagem que o imaginário social costuma resgatar é a de um consultório silencioso, o acolhimento de duas cadeiras e um mergulho profundo nas correntes mais íntimas da subjetividade. Esse espaço de escuta clínica é valioso, legítimo e salvaguarda uma dimensão única do humano. No entanto, se insistirmos em olhar para a Psicologia apenas através dessa fechadura individualizante, ignoramos o chão onde o sofrimento psíquico realmente começa a ser moldado: nas estruturas vivas, econômicas e jurídicas da sociedade.

Afirmar que "Psicologia é Política" não tem qualquer relação com partidarismos, ideologias de ocasião ou palanques eleitorais. Trata-se, fundamentalmente, de um compromisso com o rigor científico, com a ética profissional e com a realidade material da população brasileira.

Tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto os parâmetros norteadores do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e do Código de Ética da nossa profissão sustentam que a saúde mental não é um evento isolado no cérebro. Ela é o resultado dinâmico de um complexo arranjo de fatores biológicos, psicológicos e, estruturalmente, sociais e econômicos. Os chamados Determinantes Sociais da Saúde (DSS) comprovam cientificamente que as condições em que uma pessoa nasce, cresce, trabalha, se alimenta, vive e envelhece são os principais preditores do seu nível de estresse, ansiedade, depressão e bem-estar.

O Sofrimento Oculto no Diário Oficial

O sofrimento que bate à porta dos consultórios privados ou que satura as salas de espera do serviço público frequentemente se apresenta sob a roupagem de um sintoma estritamente individual. É a crise de pânico que paralisa no meio do trânsito, a insônia crônica que corrói as madrugadas ou a depressão que esvazia o sentido do amanhã. Todavia, quando realizamos uma anamnese profunda e sensível, percebemos que as raízes dessas dores estão atreladas a decisões coletivas, muitas vezes assinadas longe dali, nas esferas do poder público.

  • O esgotamento profissional extremo (burnout) não pode ser reduzido a uma incapacidade individual de gerenciar o tempo ou à falta de "equilíbrio pessoal". Ele é alimentado por ecossistemas corporativos precarizados, pela erosão dos direitos trabalhistas e por jornadas desreguladas que invadem o tempo de descanso, mantendo o sistema nervoso central em um estado crônico de hipervigilância e alerta.

  • A ansiedade crônica de uma mãe solo não se resolve de maneira sustentável apenas com o manejo de técnicas de respiração diafragmática. O sintoma físico cede quando há o amparo de redes públicas de proteção, segurança alimentar para seus filhos, vagas em creches e o direito elementar de não precisar escolher qual refeição cortar no dia.

  • O trauma complexo e o desamparo não são disfunções neuroquímicas espontâneas quando acometem indivíduos cronicamente expostos a contextos de vulnerabilidade social, racismo estrutural ou violência de gênero. O sofrimento, nestes casos, é uma resposta adaptativa normal a um ambiente profundamente disfuncional e hostil.

Fazer política, no sentido estrito, ético e original da palavra (pólis), significa debater e deliberar sobre como organizamos a nossa vida em comum. Portanto, cada projeto de lei votado, cada alteração em uma norma regulamentadora de trabalho, cada centavo contingenciado ou aprovado para a assistência social e a saúde pública funcionam como uma arquitetura invisível. São decisões que têm o poder de promover a dignidade humana ou de produzir o adoecimento em massa.

Uma Atuação Científica, Ética e Apartidária

O compromisso da Psicologia enquanto ciência e profissão está explicitado em seu Código de Ética: pautar-se pelo respeito à dignidade, à liberdade, à igualdade e à integridade do ser humano, trabalhando ativamente para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração e violência.

Nossa preocupação, portanto, é estritamente técnica, bioética e humana. Legislações e políticas públicas não pertencem a este ou àquele partido; elas pertencem ao tecido social e impactam a carne e o psiquismo de pessoas reais.

Quando a psicologia se recusa a erguer os olhos do divã para observar o cenário macroeconômico e social, ela incorre em um grave erro metodológico: ela individualiza a culpa. Tratar como "falta de resiliência" ou "fragilidade emocional" aquilo que é fruto do desamparo social e da violência estrutural não é apenas um equívoco científico, mas uma violação do compromisso ético com a verdade do paciente. O sujeito não adoece sozinho; ele adoece em relação e no mundo.

O Horizonte desta Série

Este ensaio funciona como o marco introdutório de uma jornada de reflexões fundamentais que compartilharei neste espaço ao longo das próximas semanas. Nosso objetivo será analisar, sob o prisma da psicologia e amparados por dados e publicações dos meios de comunicação oficiais, como as leis recentes (tanto as que já estão em vigor quanto os projetos que tramitam em regime de urgência no Brasil) desenham o bem-estar ou o sofrimento psíquico da nossa população.

Convidamos você a acompanhar este espaço, a participar dos debates e a expandir o olhar sobre a Psicologia para além das fronteiras tradicionais do consultório. Afinal, acolher e cuidar da mente humana exige, obrigatoriamente, a coragem de compreender e o desejo de transformar o mundo em que vivemos.

Referências Científicas e Institucionais para Leitura:

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Social Determinants of Mental Health. Geneva: World Health Organization.

  • Conselho Federal de Psicologia (CFP). Código de Ética Profissional do Psicólogo. Princípios Fundamentais I, II e IV.

  • Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS). As causas sociais das iniquidades em saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz.

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